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El Niño desafia usinas a moer toda a cana disponível na safra 2026/27

16/09/2026

El Niño desafia usinas a moer toda a cana disponível na safra 2026/27

O fenômeno climático El Niño, previsto para ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026, já está no centro das atenções do setor sucroenergético. 

No Vale do Paranapanema, região estratégica para a produção de cana-de-açúcar em São Paulo, especialistas apontam que os efeitos podem ser ambíguos: ao mesmo tempo em que favorecem o desenvolvimento dos canaviais, podem comprometer a colheita e a qualidade da matéria-prima.

De acordo com análises de técnicos, as chuvas trazidas pelo El Niño beneficiaram o desempenho dos canaviais, mas podem atrasar a colheita e reduzir o ritmo de moagem das usinas em caso de grande ocorrência pluviométrica nos próximos meses, quando está prevista a conclusão da safra. 

O alerta amarelo acendeu no setor devido à perspectiva de que pode haver grande volume de “cana bisada”, quando parte da produção não é colhida e perde qualidade. A situação já é monitorada pela Assocana - Associação Rural dos Fornecedores e Plantadores de Cana do Vale do Paranapanema -, entidade que congrega produtores rurais da região de Assis. 

Segundo Flávio Teixeira, gerente agrícola da entidade, o cenário ainda é difícil de dimensionar porque as decisões estarão diretamente condicionadas ao comportamento das chuvas. “O clima vai orquestrar o que acontecerá com a safra”, avaliou. Com a possibilidade de chuvas mais frequentes em setembro e outubro, informou Teixeira, a colheita pode perder ritmo justamente em um período importante para a conclusão da safra.

Ele prevê que, caso as condições impeçam o avanço da operação, parte da cana poderá permanecer em pé e ser processada somente no início da próxima safra, que, em algumas unidades, poderá começar já em março. “Se chover bastante, não vai ter jeito. Vai haver prejuízo e parte da cana poderá ficar para a próxima safra”, lamentou o gerente.

ALTERNATIVAS

 Diante da possibilidade de excedente de cana, informou a Assocana, indústrias da região já avaliam alternativas para ampliar o período de processamento. Algumas trabalham com a perspectiva de seguir com a moagem até dezembro, enquanto outras analisam como absorver a produção de fornecedores parceiros dentro do período regular da safra.

A estratégia, segundo Teixeira, deve variar de acordo com cada unidade e com as características dos contratos e das relações estabelecidas com os produtores. Também podem ocorrer negociações específicas para definir o destino da cana que eventualmente não consiga ser processada neste ano.

“Para o fornecedor, a intenção é tentar moer dentro do período de safra. As unidades estão buscando alternativas para não deixar a cana dos parceiros para o ano que vem”, explicou o gerente.

O gerente da Assocana observou que, no cenário que se apresenta, as empresas tenderão a dar prioridade aos fornecedores parceiros, enquanto eventuais excedentes de áreas próprias ou de grandes produtores podem ter maior possibilidade de serem direcionados para a próxima safra. A permanência da cana no campo representa um desafio que vai além da questão operacional, pois significa para o produtor adiar uma receita que já estava prevista no planejamento da propriedade.

INCERTEZA

Teixeira disse que a situação se torna ainda mais delicada diante do nível de remuneração da cana, que está abaixo do que os produtores gostariam e esperavam. A combinação entre preços menos favoráveis, custos de produção e a possibilidade de postergar a entrega da cana aumenta a pressão financeira.

“Se deixar para o ano que vem, o produtor deixa de ter uma receita neste ano. E todo mundo tem seus compromissos para pagar. É complicado”, ponderou o gerente.

Para Teixeira, se parte da produção deixar de ser comercializada em 2026, o produtor poderá enfrentar não apenas o adiamento do recebimento, mas também um momento de mercado que já não apresenta a remuneração observada em períodos anteriores.

“Em um setor com custos elevados de produção e compromissos financeiros distribuídos ao longo do ano, a capacidade de cada unidade industrial de estender a moagem ou encontrar alternativas para absorver a produção será importante para reduzir os impactos”, apontou o gerente.

CLIMA “MAESTRO”

Teixeira destacou também que as previsões meteorológicas apontam para chuvas significativas na região nos próximos meses.

“Se esse cenário se confirmar, as empresas podem dificultar a entrada das máquinas no campo e reduzir a janela disponível para colheita e processamento. Por outro lado, condições mais favoráveis permitiriam acelerar as operações e diminuir o volume de cana que eventualmente precisaria ser transferido para a próxima safra”, avaliou o gerente.

Contudo, Teixeira diz que o momento ainda é de cautela e será necessário aguardar para dimensionar o impacto real no setor devido às diferentes possibilidades de evolução do clima.

“Tudo depende de como os fatores climáticos vão se comportar daqui para frente. São Pedro vai ser o maestro regente do que vai acontecer na atividade agrícola”, enfatizou o gerente.
A Assocana destacou ainda que os próximos meses serão decisivos não apenas para o fechamento da safra atual, mas também para o planejamento do próximo período produtivo.

A prioridade, segundo a entidade, será buscar alternativas que permitam processar o maior volume possível de cana dentro da janela de safra, reduzindo os impactos sobre a receita dos produtores e sobre toda a cadeia produtiva regional.
Colaborou Waldyra Duarte, jornalista da Assocana